O HIV pode ser tratado através da edição genética? Podemos descobrir em breve



O VIH, vírus causador da SIDA, foi identificado pela primeira vez em 1983. Estar infectado com este vírus era inicialmente uma sentença de morte, mas hoje, graças aos medicamentos anti-retrovirais, é possível controlá-lo. No entanto, ainda não há cura.

O tratamento desenvolvido pela Excision BioTherapeutics utiliza uma tecnologia de edição genética chamada CRISPR para procurar o vírus e desativá-lo, cortando grandes porções do seu DNA, impedindo-o de se replicar.

Uma pequena empresa de biotecnologia em São Francisco chamada Excision BioTherapeutics está tentando mudar isso com sua injeção chamada EBT-101. A empresa anunciou recentemente resultados positivos para o seu tratamento único de edição genética, mas apenas no que diz respeito à segurança. Não houve efeitos colaterais graves nos três pacientes que receberam o medicamento experimental.

Teremos que esperar até 2024 para receber o primeiro relatório sobre a eficácia.

Apesar da disponibilidade de medicamentos anti-retrovirais, centenas de milhares de pessoas ainda morrem de SIDA todos os anos. Há uma necessidade urgente de tratar a doença.

Pequeno, mas astuto

O HIV, como todos os vírus, consiste em material genético e uma casca. É cerca de um bilhão de vezes menor que o corpo humano e é especialista em escapar das defesas do sistema imunológico.

O tratamento desenvolvido pela Excision BioTherapeutics utiliza uma tecnologia de edição genética chamada CRISPR para procurar o vírus e desativá-lo, cortando grandes porções do seu DNA, impedindo-o de se replicar.

CRISPR é uma ideia copiada de nossos ancestrais microscópicos, as células bacterianas. Esta ferramenta versátil contra vírus, que as bactérias têm utilizado eficientemente durante milhões de anos para se defenderem, está agora pronta para proteger os humanos contra ameaças virais.

CRISPR é como um robô em miniatura que pode atingir locais desejados de material genético dentro ou fora de uma célula viva. Pode ser usado para tratar doenças, desenvolver novos tipos de culturas e monitorizar a propagação de doenças infecciosas.

Já se passaram 35 anos desde que o CRISPR foi descoberto, mas nos últimos 10 anos, a tecnologia fez avanços significativos, especialmente no tratamento de doenças genéticas, como a anemia falciforme. Espera-se que a Food and Drug Administration dos EUA tome uma decisão em dezembro próximo para aprovar a tecnologia CRISPR para tratar células falciformes.

Precisamos de uma cura

Em Dezembro de 2022, quase 30 milhões de pessoas recebiam medicamentos anti-retrovirais para tratar o VIH, um aumento significativo em relação aos 7,7 milhões em 2010. Embora estes medicamentos salvem vidas, podem causar efeitos secundários, tais como bloqueio das artérias coronárias e doenças neurodegenerativas.

Os vírus e os organismos que eles infectam estão em guerra há bilhões de anos. O corpo humano é uma fortaleza guardada por camadas de protecção, por isso o VIH utiliza diferentes métodos para escapar ao ataque imunitário em evolução do corpo humano. Uma estratégia é permanecer escondido dentro das mesmas células imunológicas, chamadas células T, projetadas para atacar você. O vírus pode permanecer inativo nessas células por longos períodos, aguardando as condições certas para se replicar.

O vírus também comete erros no seu material genético ao se replicar, levando ao surgimento de milhares de variedades mutantes. Isto torna extremamente difícil o desenvolvimento de medicamentos contra a doença ameaçadora. Contudo, o CRISPR foi projetado para atacar o núcleo do vírus, aumentando as chances de inativá-lo.

Os investigadores concentraram-se em melhorar as ferramentas CRISPR e entregá-las às células infectadas pelo VIH para atingir e remover o ADN viral integrado do genoma da célula imunitária hospedeira.

Dos animais aos humanos

Tal como acontece com todos os medicamentos, o tratamento teve primeiro de ser testado em animais de laboratório.

Em 2020, investigadores da Temple University (EUA) utilizaram com sucesso o CRISPR para procurar VIH em órgãos de ratinhos e ratos e remover partes críticas do ADN do VIH. Isso motivou mais pesquisas neste campo.

No mesmo ano, a mesma equipa forneceu provas de que a técnica funcionava em macacos infectados com a forma símia do VIH, conhecida como SIV. Isto sugere que pode ser seguro testar o tratamento em humanos.

Embora os resultados de segurança do EBT-101 sejam encorajadores, ainda há muito trabalho a ser feito. Testar grupos maiores de pessoas e tornar o tratamento acessível a todas as pessoas com VIH é crucial porque a doença é mais prevalente nos países pobres.

Contudo, as realizações da Excision BioTherapeutics estão a começar a dar esperança de que uma cura para a SIDA possa estar no horizonte.

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